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O Poeta Espírita Hemetério Cabrinha

abril 20, 2009

imagem: autor desconhecido

A História do Espiritismo em Manaus é repleta de personalidades de influências e atuações espíritas marcantes nas mais variadas épocas. A mais de um século o Movimento espírita atua nas sendas amazônicas, instaurando transformações oportunas e necessárias à sociedade manauense. Neste ínterim de forças espíritas atuantes, temos na personalidade do poeta Hemetério Cabrinha, uma louvável atuação artística e social.
O verdadeiro nome do poeta é Hemetério José dos Santos, nascido em 1892 em Fortaleza (Ceará), e levado a óbito em 1969 em Manaus, terra que escolheu para viver e dar seguimento a sua vida poética e inspiradora de valores espirituais. O pseudônimo Hemetério Cabrinha é originário de um apelido de infância, nome artístico que preservou ao longo de sua existência.
A vinda de Hemetério Cabrinha para Manaus, deu-se em 1916. Este, como tantos outros nordestinos que para cá vieram, traziam a esperança de encontrar oportunidades na Manaus esplendorosa da borracha. Porém,  vivenciou apenas os últimos dias de tal fulgor. Migrante nordestino, viveu do trabalho honesto de sua profissão em carpintaria, recebendo a acolhida gentil da exuberante selva amazônica. Seu talento nato para a poesia e sua postura honesta e comprometida com as causas espíritas, o tornam um dos grandes representantes da poesia espírita de meados do século XX em Manaus. Sua atuação social é notável através da oratória vibrante em defesa dos mais humildes, aparecendo em campanhas cívicas na cidade de Manaus, onde a sua poesia o torna arauto nas reivindicações pelas melhorias sociais urbana.
O amor a poesia o levou a fundar um grêmio literário denominado Academia dos Novos, passo vitorioso para mais tarde influenciar na formação do Clube da Madrugada, em 1954, o qual se tornaria famoso como ponto de convergência da intelectualidade literária de então. Neste Clube, que Hermetério participou ativamente, sua poesia tinha grande reconhecimento e também trânsito para se fazer reconhecida em outros estados.
Em sua trajetória como poeta do Espiritismo em Manaus, encontramo-lo integrando ativamente o Movimento Espírita  da época e com atuação nas sendas do bem vai além da poética. Hemetério Cabrinha, em conjunto com outros espíritas da época, frente ao comprometimento com a causa, participou da fundação, em 1° de janeiro de 1951, do Centro Espírita Tenda de Jesus. Que inicialmente funcionou nas dependências da casa de Hemetério Cabrinha, na Rua Mundurucus, nº 108 – Centro que também abrigava a Escola de Estudos Espíritas Kardequianos, reunindo numeroso grupo de estudiosos, em reuniões científicas e doutrinárias.
Atualmente conhecido como Centro espírita Morada de Jesus, esta casa de consolo na seara do bem só conseguiu ter a sua sede própria em 25 de dezembro de 1971, situando-se na Rua Leonor Telles, 120, Bairro do Aleixo (antiga Rua Javari, entre as ruas Paraíba e Belo Horizonte, na divisa dos bairros de Adrianópolis e Aleixo) onde funciona até os nossos dias. Por longos anos, o Centro Espírita Tenda de Jesus foi dirigido pelo poeta Hemetério Cabrinha, que foi sucedido mais tarde por Otília Adalta da Costa até o desencarne desta em 1983.
A atuação valorosa de Hemetério Cabrinha ao longo de sua existência como poeta e espírita, demarca um legado literário de força e técnica, que nos leva a reconhecer que este homem de bem, cujo ofício de carpinteiro exercia de forma primorosa, era também um esteta da palavra. Foi um grande conhecedor das obras imortais de Olavo Bilac, Antero de Quental, Augusto dos Anjos, ente outros grandes da literatura brasileira, dos quais é possível perceber a influência em suas poesias. Além de estudar e conhecer a fundo os ensinamentos da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, estudou obras poéticas espíritas, como Parnaso de Além-Túmulo, psicografado por Francisco Cândido Xavier em 1932.
Este líder nato presenteia a posteridade com obras poéticas repletas de ensinamentos iluminativos e requintes literários. Em seus poemas se percebe a linguagem técnicas das influências literárias conhecidas ao longo de sua existência, como o romantismo, o parnasianismo, e o simbolismo. Característica comum aos poetas de sua época, este ecletismo poético, surgem nos poemas de Cabrinha, permeados dos ideais e conhecimentos espíritas.
O inconformismo de alguns poemas, a lírica amorosa de outros, ou mesmo o regionalismo também encontrado nos versos deste poeta, são autenticidades existenciais deste seareiro da grande floresta amazônica. No entanto, grande parte de seus escritos ganham vida na fé inabalável no Espiritismo e nos ensinos de Jesus. Hemetério Cabrinha configura-se como um homem de bem e, em toda sua vida, portou-se como verdadeiro espírita, com comprometimento e amor a causa. É um espírita nos moldes que o codificador nos aponta:

Reconhece-se o verdadeiro espírita por sua formação moral, e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações. (Allan Kardec, E.S.E., XVII, 4).

Seu último livro, Frontões, foi publicado em 1958, caracterizando-se como uma das melhores obras Cabrinha. A este livro o poeta agregou publicações anteriores, dando assim características de um certo hibridismo poético. Pela importância reconhecida de sua obra poética, Hemetério Cabrinha teve relançada a segunda edição de Frontões pela EDUA (Editora da Universidade do Amazonas) em 1997.
Além dessa, foram publicadas de sua autoria as seguintes obras: O meu sertão (Manaus: Palais Royal, 1920), Satã (Manaus: Palais Royal, 1922), Vereda iluminada. Manaus: Imprensa Pública, 1923), Caim (Manaus, s. n., 1934), Frontões. (Manaus: Sérgio Cardoso, 1958).

– A presença de ensinamentos espíritas em suas poesias:

A seguir serão apresentadas duas poesias de sua lavra para servir como base indicativa do conteúdo espírita que as mesmas portavam, sem comprometimento da universalidade da linguagem, da beleza das imagens criadas, e da técnica construtiva.
Na primeira (Quem fui e o que serei) pode ser encontrada a tese espírita para processo evolutivo dos seres inteligentes que povoam o universo. Nesta, o principio inteligente criado por Deus, inicia sua trajetória em busca de automatismos biológicos pelos reinos inferiores da natureza e, depois de completada suas aquisições nesse aspecto, é transformado em Espírito, simples e ignorante, mas já dotado de consciência de si, razão, juízo de valor e outros atributos da racionalidade. A partir desse ponto ele inicia sua evolução em busca de conhecimentos e virtudes até transformar-se em Espírito Puro.
Na segunda (Hora Extrema) pode ser encontrada a tese espírita para a existência e imortalidade do espírito. Nesta, os espíritos são compreendidos como individualidades inteligentes da Criação Divina e destinados a perfeição. As diferenças existentes entre eles não constituem espécie distinta, mas diversos graus de adiantamento moral e intelectual. Eles são as almas dos homens encarnados. O mundo corporal e o mundo espiritual agem incessantemente um sobre o outro; pela morte do corpo, o mundo corporal restitui o espírito à sua pátria de origem, e pela reencarnação o mundo espiritual constitui a humanidade

QUEM FUI E O QUE SEREI (Frontões)

Fui húmus, fui cristal, fui pedra bruta,
E nas substâncias da matéria inerme,
Vim desde a vibração ao paquiderme,
Após milhões de séculos de luta.

Monera, larva, lama, lesma, verme
Fui, (para a expansão da causa Absoluta
De onde a vida nos corpos se transmuta)
Até sentir calor na minha derme.

Na transcendente hereditariedade,
A minha rude personalidade
Chego a ser o que é na vida hodierna…

E daqui para além irei seguindo,
Evoluindo sempre, evoluindo
Até chegar à Perfeição Eterna.

HORA EXTREMA(Frontões)

Na hora extrema, quando o frio corta
Os neurônios nas dores aguçadas
E a alma, dentro da carne, não suporta
A atrofia das células cansadas.

Das articulações paralisadas,
Rompendo o véu da natureza morta;
Na leveza das formas irisadas
À verdadeira vida se transporta

E, liberta das dores, dos cansaços,
Na plenitude excelsa dos espaços,
Fora das exigências da matéria;

Em proporção que do orbe se desata,
Sente que a vida plena se dilata,
Em sua própria natureza etérea.

-Evidentemente, a obra literária de Hemetério Cabrinha é um marco na história da literatura espírita amazonense. Os aspectos relacionados à sua vida literária, os fatos relacionados à sua atuação na seara espírita, o reconhecimento de sua obra poética pelas instituições de ensino superior e literatos amazonenses, comprovam a valorosa participação intelectual e espiritual deste migrante nordestino, que adotou o Amazonas como sua terra de coração e oração.
O Movimento Espírita amazonense ao longo de seus cento e quatro anos tem no exemplo de vida deste lúcido poeta, o exemplo de espírita comprometido com a causa. Mesmo as dificuldades da época por ele vivida, especialmente os preconceitos enfrentados pelo próprio Espiritismo e aqueles motivados por evidenciar em seus poemas a sua fé, não enfraqueceram os objetivos de seus ideais espirituais.
A poesia de Hemetério Cabrinha é literatura que nos doa horizontes dentro das perspectivas de transformações da espiritualização da arte amazonense. Pelo exemplo vivido, este nobre poeta fora discípulo fiel dos ideais espíritas. De onde podemos afirmar que o estudo sobre sua obra literária e atuação doutrinária nos inspira a continuar a obra de iluminação cristã nas searas amazônicas.

Iva Tai

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A Arte Espírita em Manaus

abril 13, 2009
espírito da floresta (by Iva Tai)

espírito da floresta (by Iva Tai)

Dentre os compromissos iluminativos que almejam a difusão do conhecimento espírita, temos na arte uma fonte inesgotável de possibilidades. Segundo critérios do próprio codificador, a necessidade de envolvimento da arte com o ser na sua busca pela integralidade é uma constante necessária e infalível. No futuro, frente ao desenvolvimento de seus aspectos morais e intelectuais, a humanidade também refinará seu campo estético. Tal fato se dará sob a égide dos ensinamentos do Cristo, sendo que a arte transmutará na própria existência do ser espiritual. Dotado de características psíquicas iluminadas pelo supremo bem representante da divindade que há em cada ser humano, e que nos faz possíveis de perfeição.
Ao longo de cento e quatro anos, o Espiritismo está presente nas sendas amazônicas. E de suas notáveis ferramentas de divulgação, a arte espírita avança em formações grupais e individuais norteadoras de comprometimentos com a causa do Cristo. Como veículo de divulgação, a arte possibilita sensibilizar e comunicar a sociedade em geral de forma mais abrangente. Uma vez que esta é uma fala universal de entendimento e sensações.
São muitos os grupos artísticos, literatos e artistas existentes nas casas espíritas de Manaus, sendo o teatro e a música grandes alicerces instauradores da prática artística espírita primordial na região. A literatura também avança, tendo em seu contexto escritores e poetas diversificados. No campo das artes visuais, temos na fotografia, nas artes plásticas e cinema, nascente promissora de divulgação.
Dos grupos teatrais, a Fundação Allan Kardec possui a tradição de um teatro que notadamente trabalha as lições de amor do consolador, assim como a Fundação Léon Denis e o grupo NEDA. Estes grupos teatrais, contam com profissionais balizados no campo da dramaturgia, sendo que seus trabalhos iluminativos já foram vistos por um grande público apreciador da arte e do espiritismo. Assim, o teatro espírita em Manaus leva a sua mensagem a um público sedento de consolo, saindo da casa espírita e conquistando um público muitas vezes ignorante quanto às diretrizes espíritas.
A música espírita conta com grandes compositores e intérpretes, já se tem resultados fonográficos nos lares espíritas da região e além. Grupos como o Harmonia, Sal e Luz e compositores como o Valdeir, são frutos do aprimoramento musical e conquistas espirituais ao longo da trajetória espírita amazonense.
Nas artes visuais, as pinturas e composições artísticas criam espaço em eventos das mocidades espíritas,  nos trabalhos de alguns artistas ligados a ABRARTE (Associação Brasileira de Arte espírita), onde as técnicas diversificadas transitam também na fotografia e arte digital.
O cinema espírita amazonense já se delineia em tímidas gravações voltadas para ensinamentos e pequenos curtas retratando os princípios doutrinários.
Inúmeras fontes de divulgações pleiteiam este universo doador de possibilidades regenerativas, sendo que historicamente o Amazonas já possui um grande legado de atributos que o torna um grande porta voz do espiritismo nesta imensa floresta. A arte, aqui evidenciada, é mais uma força somatória nesta caminhada de ideais, uma aliada louvável.

Iva Tai